Dolly Parton de volta à telona
É fácil imaginar que a lenda da música country Dolly Parton tenha uma aparência bem diferente quando está em casa. Nada de vestidos produzidos nem brilhos, nem perucas exuberantes ou unhas postiças... se bobear, ela pode até ser alta e lisa feito uma tábua quando ninguém lhe está prestando atenção.
"Que nada", diz ela.
"Querida, se você tocar a minha campainha às oito da manhã, vai me encontrar exatamente assim, nos 365 dias do ano", diz ela. "Vai ver, sim a peruca, o glitter e as unhas postiças a essa hora da manhã."
E se a campainha tocar mais cedo que isso?
"Aí, simplesmente não atendo", diz a loira com sua gargalhada marcante.
Hoje, Dolly está a milhares de anos-luz de suas origens, no empoeirado Tennessee. Faltam algumas semanas para o Natal e a cantora de 65 anos está hospedada num luxuoso hotel na Park Avenue, em Nova York, para falar de seu novo filme, "Joyful Noise". Ela é exatamente o que se espera da carismática Dolly Parton: uma mulher baixinha metida numa calça preta, camisa branca bordada e uma peruca loira gigantesca. A cintura é tão fina que qualquer um poderia abarcá-la com as duas mãos; para completar, saltos altíssimos, batom vermelho e unhas longuíssimas com francesinha.
UNDATED -- BC-HOLLYWOOD-WATCH-DOLLY-PARTON-ART-NYTSF -- Dolly Parton sings gospel music in "Joyful Noise," her first feature film since 2002. .This picture accompanies an article by Cindy Pearlman.(Photo by Van Redin. Copyright 2012 Warner Bros.)
A vida cria situações estranhas para Dolly, que tem os fãs mais fiéis da música country _ e os mais excêntricos também.
"Eu tenho uma fazenda em Nashville", ela conta. "Um dia, nos anos 70, estávamos chegando em casa e tinha uma caixa perto do nosso portão com um bebê dentro. Eu tinha acabado de gravar 'Jolene' (1973), e o bilhete dizia: 'O nome dela é Jolene. Dei esse nome a ela por sua causa; por favor, fique com ela'."
Dolly dá risada.
"Liguei para a Assistência Social na mesma hora, claro. Dá para acreditar num negócio desses?"
Com estreia marcada para treze de janeiro em todo o território americano, "Joyful Noise" é o primeiro filme de Dolly desde "Falando Francamente" (1992). Ela interpreta G.G. Sparrow, uma cantora da igreja de uma cidadezinha, que tem ideias progressistas e gostaria de ver o grupo cantando rock e rap alto-astral, mas a diretora antiquada (Queen Latifah) não vê a necessidade de mudanças. Até que um concurso nacional oferece ao coro novas oportunidades _ e surgem os choques de opiniões.
"Eu quis fazer esse filme para motivar as pessoas", Dolly revela, "mas o que me inspirou foi trabalhar com a Queen Latifah. Nunca vou me esquecer do primeiro dia no estúdio de gravação. Foi a primeira vez que olhamos uma para outra pessoalmente e fomos direto para o microfone e começamos a cantar e a improvisar. Pensei: 'Eu adoro essa mulher!'."
"Primeiro, conversamos por telefone, trocamos ideias e opiniões sobre o filme e o roteiro", Latifah relembra numa entrevista separada. "Tanto eu como ela estávamos super animadas de trabalharmos juntas. Ficou mais ou menos implícito que a gente ia fazer o longa... Adorei o jeito como ela chegou falando comigo."
"De onde eu venho, todo mundo sempre fala a verdade", Dolly diz quando ouve o comentário da colega. "Vamos ser sinceros: você pode ter as duas pessoas mais famosas de Hollywood numa sala, mas nem sempre a coisa funciona. Nós gostamos uma da outra de verdade. Ninguém estava fazendo tipo, simplesmente nos demos bem desde o primeiro momento."
Já não se pode dizer o mesmo de suas personagens: o duelo das duas pela alma do coral chega às raias do absurdo e não é para os fracos: é unha voando, cabelo sendo arrancado e muitas barbaridades ditas sobre as plásticas de Dolly.
"Aquela briga foi a coisa mais divertida", Dolly afirma, "e foi registrada! Ficamos o dia inteiro para filmar e, no fim das contas, já estava todo mundo pelas tabelas, mas eu estava disposta a sair no tapa e rolar no chão _ e não deu outra, rolamos até no espaguete. Foi a maior diversão".
Em relação às críticas à sua aparência, Dolly só ri. Afinal, já ouviu todas as ofensas antes.
"A verdade é que eu sempre copiei meu visual do da prostituta da cidade", a cantora admite. "Quando era criança, tinha uma mulher que vivia na rua da minha cidade. Eu achava que ela era a coisa mais linda do mundo. Claro que não vou dizer seu nome, mas o que interessa é que era linda, uma verdadeira boneca. Eu comentava com o pessoal: 'Ela não é linda?' E só o que ouvia era: 'Ela não passa de uma vadia'."
"Naquele momento soube que queria ter coisas bonitas", ela afirma, "mas, quando era criança, não havia dinheiro para isso. Queria ficar bonita, então pegava as groselhas e fazia batom com elas; usava palito de fósforo para fazer a sobrancelha e outras marquinhas".
"Meu avô era pastor e se juntou com meu pai", ela continua. "Nenhum dos dois queria que eu usasse maquiagem, mas não podiam limpar o meu rosto nem me machucar para limpá-lo."
"Eu era rebelde", Dolly conclui. "Apanhei muito por seu quem eu era."
Dolly Rebecca Parton é uma dos doze filhos do produtor de fumo Robert Lee Parton e sua mulher, Avie Lee. Ela cresceu numa casa de um único cômodo numa propriedade em Locust Ridge, Tennessee _ e só conseguiu sair de lá por causa da voz afinada. Aos doze anos, já cantava na TV em Knoxville e aos treze já gravava num selo pequeno e aparecia no "The Grand Ole Opry".
Em 1964, Dolly se formou no ensino médio e se mudou para Nashville para começar a carreira como cantora de country; ao mesmo tempo, ela se apaixonou por Carl Dean, dono de uma empresa de pavimentação. Eles se casaram em 1966 e continuam juntos até hoje.
Em 1967, ela chamou a atenção do veterano astro Porter Wagoner, que a contratou para aparecer em seu programa de TV _ e acabou sendo seu mentor durante os sete anos que passaram em turnês e apresentações na TV. Eles também gravaram uma série de sucessos que emplacaram no topo da parada country e os transformaram numa das duplas mais famosas de Nashville.
Em 1973 e 1974, eles se separaram, enquanto Dolly lançava sua carreira solo. Em resposta ao ressentimento de Wagoner, ela compôs a música "I Will Always Love You" (1974) para provar sua afeição por ele _ e novamente ficou no topo da parada.
Durante sua carreira solo, Dolly emplacou uma longa série de sucessos e sua combinação de sex appeal e bom-humor típico do interior chamaram a atenção de Hollywood. Ela ganhou um seriado na TV, "Dolly" (1976), e estreou no cinema com "Como Eliminar Seu Chefe" (1980), cuja música título foi indicada ao Oscar. Foi indicada novamente por "Travelin' Thru", composta para "Transamérica" (2005).
Entre os filmes que fez depois vieram "A Melhor Casa Suspeita do Texas" (1982), "Um Brilho na Noite" (1984) e "Flores de Aço" (1989). Recentemente, ela emprestou a voz para Dolly Gone em "Gnomeu & Julieta" (2011).
"Fiquei sem fazer um filme de ação todo esse tempo porque não tive a oportunidade", ela confessa. "Fazia anos que ninguém me mandava nada bom. Acho que o último filme grande que fiz foi 'Falando Francamente'. Agora já não posso mais fazer a mocinha e ainda não tenho idade para fazer a vovó glamorosa."
Não que ela esteja sem ter o que fazer: Dolly continua sendo uma atração formidável em termos de shows e vendas de discos, além de provar que é uma mulher de negócios competente. Em 1986, sua Dolly Parton Enterprises inaugurou um parque temático, o Dollywood, em Pigeon Forge, no Tennessee _ uma homenagem à sua infância em Smoky Mountains e uma iniciativa para criar empregos na comunidade _ que se tornou uma das atrações mais populares da região.
Ela poderia muito bem se aposentar da música para cuidar de seus interesses comerciais, mas jura que jamais fará isso.
"Adoro tudo o que faço", ela afirma. "Minha música é a razão por que posso aproveitar Dollywood e todas as outras coisas. Sinceramente, a música é o que há de mais importante para mim. Foi uma música que me ajudou a sair de Smoky Mountains."
"Deus tem sido muito bom para mim", Dolly continua. "Muitos amigos meus, da mesma idade, não fazem nem metade do que eu faço. Sinto que estou começando de novo. E sonhando novos sonhos."
Numa carreira que já dura mais de 50 anos, ela enfrentou altos e baixos e garante que já aprendeu a surfar.
"O meu lema é: 'Se você quer um arco-íris, tem que aprender a tolerar a chuva'", ela conclui.
Em relação ao visual agora que está ficando mais velha, ela não se incomoda em dizer que já apelou para uma mãozinha.
"Sempre tive seios bonitos", Dolly comenta, "mas, com o passar dos anos, tive que fazer manutenção".
Ela também aprendeu a adaptar seu estilo de vida à passagem do tempo.
"Consegui ficar magra porque passo fome", Dolly admite, sem culpa. "Engordei bastante lá pelos 40 e poucos, mas eu sabia que não podia continuar comendo feito menina. Agora estou pequenininha outra vez".
Quais as medidas exatas de sua cintura?
"Depende do que eu como", ela diz com uma risada, "mas pode ter certeza que vai ficar mais grossa depois do Natal".
Ela pode ter 65 anos de idade, mas a aposentadoria não está nos seus planos.
"Acabei de voltar de uma turnê", Dolly conclui. "Adoro viajar. Já essa história de diminuir o ritmo… eu sou a Coelhinha da Energizer _ versão Playboy!"
(Cindy Pearlman é redatora freelancer de Chicago.)
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